A política brasileira sempre surpreende, mas algumas perguntas pairam no ar como um teste de fogo para quem antes circulava nos salões do poder.
Michelle Bolsonaro e as esposas dos sete réus acusados de tentar um golpe de Estado estariam preparadas para enfrentar uma nova rotina de visitas íntimas em presídios? A cena de uma ex-primeira-dama de salto alto atravessando o portão de uma penitenciária para ver seu marido não é impossível. A vida real tem suas ironias.
“Rosângela da Silva, a Janja, já percorreu cinco vezes os corredores da PF em Curitiba desde que Lula trocou o Palácio do Planalto pela cela improvisada em 7 de abril, após a condenação no caso do tríplex.”
Os nomes envolvidos não são qualquer um: Augusto Heleno, Braga Netto, Paulo Sérgio Nogueira, Anderson Torres, Mauro Cid, Ramagem e Almir Garnier. Todos antes donos de cargos estratégicos na República, agora réus, sem a blindagem institucional de outros tempos. O STF aceitou a denúncia contra o grupo, jogando-os de vez no banco dos réus. O jogo virou, e quem era acostumado a desfilar com pompa agora pode se ver obrigado a contar com a paciência e a lealdade de suas esposas.
E quem são essas mulheres que podem ter suas vidas viradas de cabeça para baixo? Michelle Bolsonaro, Rebeca Teixeira Ramagem Rodrigues [esposa de Alexandre Ramagem], Selma Foligne Crespio de Pinho [esposa de Almir Garnier Santos], Flávia Sampaio Torres [esposa de Anderson Torres], Maria Helena Ribeiro Pereira [esposa de Augusto Heleno Ribeiro Pereira], Gabriela Santiago Ribeiro Cid [esposa de Mauro César Barbosa Cid], Maria do Carmo Nogueira de Oliveira [esposa de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira] e Maria Cristina de Almeida Braga Netto [esposa de Walter Souza Braga Netto]. Todas elas, em algum momento, desfrutaram do status e das benesses do poder, mas agora podem ter que lidar com a dura realidade da Justiça.
A história ensina que mulheres de políticos condenados nem sempre estão dispostas a seguir firmes até o final da linha. O caso de Adriana Ancelmo, ex-primeira-dama do Rio de Janeiro e ex-esposa de Sérgio Cabral, é um exemplo clássico. Enquanto Cabral apodrecia nas masmorras da Lava Jato, condenado a mais de 390 anos de prisão [embora tenha cumprido apenas seis], Adriana reescrevia sua história ao lado de um novo amor. Nada de longas esperas em filas de presídio ou sacrifícios desnecessários.
E agora? Será que Michelle Bolsonaro, que sempre encarnou a figura da mulher conservadora e fiel, manteria sua postura se Jair Bolsonaro fosse condenado e preso ao 70 anos? E quanto às esposas dos generais e ex-ministros, acostumadas ao poder, aos círculos exclusivos e à deferência de subordinados? Será que a nova realidade, sem regalias, sem a escolta da segurança pública e sem a imponência dos salões de Brasília, será suportável?
A vida como ela é não costuma perdoar ilusões. A política é um jogo de apostas altas, e aqueles que jogam devem estar prontos para perder. Se a Justiça seguir seu curso e a pena for dura, o futuro pode reservar a essas mulheres uma escolha nada fácil: a espera paciente ou a liberdade de recomeçar sem olhar para trás. O tempo dirá quem, entre elas, seguirá o caminho de Adriana Ancelmo ou o das tantas outras que decidiram que a lealdade tem limites diante de certas situações.